02 nov, 2017

A arte e a distorção de hoje

02 nov, 2017

“A harmonia escondida é mais potente do que a visível.” Heráclito

A pura arte, aquela que exaltava a beleza e harmonia, não está mais nos holofotes desta minoria que alega possuir as instituições que delegam, classificam e direcionam os cominhos da “Arte.” Infelizmente, o que um dia foi o belo a ser inspirado, hoje é o feio o que inspira inúmeras sensações e valores em detrimento do belo, como podemos ver claramente nas manifestações artísticas dos tempos de hoje. Embora o estóico seja mais conhecido por sua ética e muito pouco se sabe sobre a Estética, (uma vez que a maioria dos escritos estão perdidos), ambos os ramos estão relacionados e podemos tentar reconstruir suas idéias estéticas através de sua ética. O estoicismo é a única escola filosófica que tem o nome de um elemento artístico, o Stoa ou a colunata(em termos leigos, as colunas gregas). Para entendermos a concepção de “Arte” na sua raiz, precisamos entender que as buscas pela a harmonia e beleza estavam totalmente ligadas a “verdade”, que fora profundamente influenciada por platonistas, alegando que o que deveria ser harmonioso aos olhos humanos, seria o belo em virtude dos conhecimentos que adquirimos e a técnica (arte) para expressa-las num instrumento musical, pincel ou espada. O que sempre nos perguntamos é: “Qual o limite da Arte” “O que determina algo ser considerado como arte?”, de fato, existe todo um espectro subjetivo em nossas mentes que determina o que é belo e feio, mas longe de ser puramente baseando numa subjetividade, está em movimentos que literalmente expressam seu anseio em destruir o belo e substituir por outras emoções, sentimentos e valores. É a clara negação do belo(objetivismo moral) e do distanciamento da verdade em busca de um relativismo vil e nocivo ao nosso povo, cultura e moral(subjetivismo moral).

National memorial Zrboretum, alrewas

A arte como um arquétipo poderoso

Harmódio (à esquerda) e Aristogíton (à direita), chamados “os tiranicidas”. Famoso grupo estatuário celebrando em formas idealizadas modelos de heroísmo e virtude cívica.

Quando falamos de arte helênica, é impossível não falarmos sobre as estátuas de mármore que eram presentes em todas cidades gregas e posteriormente em Roma e em todo oriente médio, fortemente influenciado pela a helenização pós-conquistas de Alexandre, o Grande.

A arte cênica, diferente do que poderia ser retratado hoje, com nossas obras artísticas que servem de escopo para inúmeros tipos de degenerações sexuais, inclusive, apoio a pedofilia, liberdade sexual e afins, não negando que de fato ocorreu em um certo grau em um período específico nas sociedades greco-romanas, seguiam o conceito de Kalokagathia (significa literalmente belo e bom, ou belo e virtuoso). As estátuas serviam como forma de exaltação de arquétipos que carregavam inúmeros mitos e lições morais para uma eterna lembrança dos deveres cívicos do cidadão pleno que vivia em conformidade com suas obrigações morais como homem ou mulher. É nítido a tentativa de divinizar-los retratando-os com corpos esbeltos, fortes e saudáveis. Algo completamente lógico e sadio de se querer. Que toda uma sociedade finque sua mentalidade em uma vida de conhecimentos, virtude e eudemonia. Não bastante, podemos encontrar esse tipo de ideia em qualquer tipo de cultura em suas fundações.

A arte naquele tempo não era uma mera decoração, mas um estilo de vida, de rito e totalmente ligado a religião. A arte era a construção da sociedade nos mínimos detalhes. A arte cênica era apenas uma área dentro de todo um leque de artes que abrangiam tudo e todos na sociedade. A arquitetura grega empunhava o mesmo princípio estético em busca do belo e virtuoso. Pensemos que no contexto grego daquela época, não era nem se quer entendido o termo “arte” como uma mera obstrução de um hobby, mas sim de todo um estilo de vida que toda a sociedade vivenciava no dia a dia. Na era dourada grega, abriu-se o precedente que toda sociedade sofre eventualmente, das grandes degenerações e declínios de uma civilização. Tal processo levou a fraqueza das instituições gregas, muito expressada por filósofos estoicos que enxergavam o declínio e a degeneração da mesma. Felizmente, o legado e o impacto cultural que que ela deixou continua firme e forte em nossas mentes. Os valores não foram esquecidos, apenas adormecidos.

A Arquitetura grega, assim como a Romana, que fora muito inspirada na mesma, trabalhava justamente em cima da matemática atingindo os limites arquitetônicos da época. Tal medida possibilitou a construção de grandes obras como o Pantenon grego, localizado na Atenas.

Os gregos foram os primeiros artistas realistas da história, ou seja, os primeiros a se preocupar em representar a natureza tal qual ela é. Para fazerem isso, foi fundamental o estudo das proporções, em cuja base se encontra a consagrada máxima segundo a qual o homem é a medida de todas as coisas.”

As três ordens gregas (dórica, jônica e coríntia)

O legado permaneceu

Com a ascensão de Roma e o domínio Romano sobre Grécia, ocorreu algo curioso, que foi uma assimilação cultural inversa. Tamanho era o poder cultural da Grécia, que os Romanos foram fortemente influenciados pelo a Helenização. Arquitetura, filosofia e padrões estéticos foram adotados de forma semelhante. De certa forma, Roma já vinha sendo influenciado, mas nada ficou tão escrachado o nível de influência arquitetônica e esteticamente após o domínio. Ao longo dos anos, Roma conseguiu criar sua própria identidade estética, porém ainda mantendo os valores do belo, harmonioso e virtude como padrões estabelecidos para a manutenção das obras que surgiam. O Ethos espiritualista ainda era presente na arte, ainda não separada da identidade do homem romano, coisa que veremos ocorrer só na era renascentista;

Atlas de Farnese, datado do segundo século D.C, cópia Romana de uma original grega. Retratando o mito de Altas, sendo punido por Zeus tendo que carregar o mundo em suas costas. Este mito é retratado em nosso livro “Semper Viri”.

Idade Medieval e Renascentismo

Eventualmente com a queda de Roma, já retratado resumidamente em nosso texto anterior, era de esperar que tais valores classistas gregos caíssem no limbo. Com o surgimento da idade medieval e a ascensão do cristianismo na Europa, a arte, assim como moralidade ainda influenciava a região, porém de uma forma diferente. As escolas filosóficas foram suprimidas por serem consideradas heréticas e muito da filosofia foi esquecida a primeiro momento, só um século depois que teríamos a volta do estudo dos filósofos clássicos.

Embora as pinturas medievais ganhassem maior destaque em comparação com as estátuas, que foram deixadas de lado e a qualidade delas entrando em declínio, as pinturas ganharam destaque e retratavam, em sua maioria, a adoração a Deus e a veneração a Santos. Nada a ser criticado, muito pelo o contrário, foram criadas ótimas obras nessa época, e a beleza arquitetônica deu bons passos para estruturas com estilos bem definidas, como a arquitetura gótica, por exemplo. Com o passar dos séculos, a arte procurava a beleza e o detalhe técnico nas pinturas e na arquitetura, com o realismo entrando em foco. O sentido da “Arte” no significado literal de “técnica” foi buscado no renascentismo, com a volta de sua inspiração nas artes greco-romanas, baseando-se na beleza e virtuoso mais uma vez. Entretanto, é válido lembrar que essa inspiração pelo helenismo, era de voltar como um mero ornamento estético, fugindo da premissa dos Próprios gregos e romanos que mesclavam a arte e religião.

Arquitetura Gótica

No renascentismo, surgiu o puro valor estético nas obras buscando com a supremacia na técnica, onde se consagraram inúmeros mestres que inspiraram gerações e mais gerações de novos pintores a buscar pela a perfeição técnica e visual. Isso foi mudar com o surgimento dos impressionistas, que deram o ponta pé inicial para o declínio dos valores da beleza objetiva e realismo em troca de outras emoções e sensações nas obras de artes. Os impressionistas surgiram como uma força de oposição contra aos padrões estabelecidos nas academias de arte. Com a premissa do “A beleza está nos olhos de quem vê”, buscando um juízo subjetivo estético, que em sua totalidade, não estavam errado, quebraram as regras e começaram a buscar novas formas e técnicas de pintura que antes não eram aceitas nas academias.

Podemos observar esta obra impressionista de Eliseu Visconti – moça no trigal, e a considerarmos bela, e de fato é. As primeiras gerações produziram ótimas obras.

Arte contemporânea e moderna.

Fränzi perante uma cadeira talhada (1910), de Ernst Ludwig Kirchner

A nossa atual crítica a “arte” moderna deu com início dos impressionistas até os dias de hoje. Infelizmente, os impressionistas abriram um precedente perigoso ao se rebelarem contra os padrões estéticos da academia. Isso foi repetindo diversas vezes e novas escolas estéticas foram surgindo, cada uma delas mais distantes do valor estético em busca do belo e virtuoso, e indo em busca de outras emoções e sentimentos que atingissem o observador. Repulsa, crítica social, abstratismo, expressionismo, irrealismo, cubismo e et cetera.

O belo foi propositalmente esquecido, e com ele, a técnica. É justamente a partir deste ponto em que as tais obras deixaram de ser obras de arte, propriamente dita, e se tornaram uma outra coisa. Você pode chama-las de obras, você pode chama-la de projeto cultural ou seja como for, mas a arte, no sentindo original que sempre foi, não é mais. Na arte moderna abriu-se o precedente de inúmeras incursões “artísticas” que esnobam do fator técnico e utilizam-se de um traço ou padrão vulgar de forma proposital, irrealista, como objetivo um ataque proposital, uma vontade de acusar e condenar um estilo próprio. Quando pegamos o Duchamp, expressionista e cubista, muito retratado no documentário de Roger Scruton, percebemos que ele desdenha da Arte. A arte ali tinha perdido o valor, e ele estava certo, ele não se importava se suas obras eram chamadas de arte ou não, ele não queria fazer arte, ele fazia algo a mais, uma outra coisa, mas não a arte.

Fonte – A Fonte é um urinol de porcelana branco, considerado uma das mais notórias obras do artista Marcel Duchamp.

Quando observamos o “Urinol” de Duchamp, percebemos até que ponto chega a mentalidade relativista das “artes”, da imagem que se passa, e a romantização esdrúxula das coisas mais mundanas possíveis. A arte clássica passava a mensagem unicamente pela a visão, pela a beleza expressada e do detalhe técnico, a “arte” moderna exige interpretação, pensamento crítico e outras coisas que não estão correlacionadas com a técnica(arte), mas sim com críticas sociais, movimentos ideológicos ou simplesmente causar o absurdo. Sim, tivemos pinturas deste caráter na arte tradicional, mas parte muito mais de um pressuposto de exaltação do que outra coisa, sempre esteve somente na ideia da contemplação do belo e virtuoso, das técnicas expressadas na tela ou no mármore. É interessante notarmos que isso criou uma mentalidade que englobasse todo entusiasta em arte, coisa que antes não ocorria. Qualquer um hoje pode fazer arte, quando antigamente não ocorria o mesmo. Apenas os bons faziam arte, apenas os melhores, apenas os aristocratas de espírito faziam a arte exaltada. Muito entusiastas tentavam e fracassavam, não vinham com o dom inato para tais coisas, restava apenas o permeio de uma vida sem conseguir aquilo que queria. Atualmente, qualquer um que se diz entusiasta pode pegar um quadro e desenhar algo e considera-lo como arte. Tornou-se algo mundano, globalizado e deixou de ser exclusivo e único.

 

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