29 ago, 2016

Romântico, cafajeste e o canalha

29 ago, 2016

Me lembro como se fosse ontem a minha melancólica adolescência. Eu posso afirmar facilmente que criava em cima dos relacionamentos com as mulheres todo um paradigma para minha vida e isso veio a ser meu maior erro e maldição naquele período de aprendizagens. Tentar viver uma história de amor é forçar fazer algo que nem sempre era para ser, ou melhor dizendo, forçar algo irreal ou fictício. Você pode tentar, como provavelmente já deve ter tentado, mas nas duras provas da vida podemos reconhecer a desilusão amorosa como uma grande parte do desenvolvimento social do homem. Eu tive um pai que sempre se intitulou como um conquistador com inúmeras histórias sobre seus feitos no campo da conquista e sedução. Então eu tinha aprendido ali que eu teria que ser/fazer o mesmo e que isso seria bom para mim. Eu, apesar de maturo para a idade, ainda era leigo e completamente infantil no que diz respeito as mulheres, moralidade ou razão de existência. Meu pai foi um bom pai, mas sinto hoje que ele poderia ter me ensinado certas coisas que passaram despercebidas em minha infância e adolescência, ou talvez, ele sabia que eu teria que passar por essas coisas sozinho e aprender com as derrotas. De fato, meu pai sempre me orientou a ser um bom homem, mas faltava um direcionamento adicional para isso. Esse direcionamento eu apenas encontrei lendo muito, me doutrinando e me espelhando em grandes escritores, filósofos e até mesmo no meu pai quando consegui compreender as coisas de uma forma mais abrangente.

O homem romântico e o cafajeste são parecidos em sua essência. O canalha é algo peculiar e merece uma explicação separada. A ideia do Homem romântico não é algo tão antigo assim, por mais que pensemos que exista estereótipos clichês na idade medieval, a coisa não funcionava da mesma forma em que vemos em livros de romance ou filmes. Esse clichê medieval do cavaleiro e sua dama numa torre é algo puramente fantasioso e ironicamente ligado ao mito do herói, mas foi modificado e levado a crer erroneamente de forma literal. Não se partia necessariamente de um romantismo exagerado e piegas como conhecemos de uns 400 anos para cá. A realidade era diferente da poesia, mesmo quando a poesia (tentava) retratava a realidade. Relacionamentos humanos mudaram durante as eras e conforme as culturas ali presentes, mas existia uma certa essência e padrão no amor e seus desejos. Como o homem conseguia e agia sobre isso é o assunto em questão. Sem dúvidas, sempre existiu o amor, algo muito explícito desde da Grécia antiga. As pessoas tinham noção do que era, dos almejos e desejos que faziam homens duelarem entre si para conseguirem ter o direito de terem a mão de sua amada e que era puramente movido por interesses, mas a sociedade e moral estimulavam o amor ali presente. Ele sempre existiu.




O clichê romântico que temos visto em grandes obras literárias como Shakespeare, por exemplo, tinha em seus livros o amor incondicional exagerado. Como algo além do normal, como algo inimaginável, como algo ainda não visto na vida real e fora do comum, mas baseado na sociedade atual(da época) e com a mesma moralidade. O que era para ser uma espécie de reflexão sobre relacionamentos humanos foi levado a ser praticado erroneamente de forma literal como um anseio por repetir os mesmos atos românticos como método de conquistar a mulher que você tanto amava. Isso misturado a filmes, livros e a esse falso desejo das mulheres em quererem ter essa experiência de amor puramente romântico fizeram com que os homens mudassem seus modos de conquista e sedução para algo extremamente meloso e sufocante. E conforme o tempo foi ficando mais degradante para as mulheres e mais decepcionante para os homens com o avanço do feminismo e pós-modernices, aquele jovem inexperiente que deseja tratar as mulheres do século XXI como mulheres do século XVI estará sempre fadado ao fracasso, amores não correspondidos e consequentemente a sofrer.

Arquétipo do herói. O Homem protetor da entidade feminina. O homem e sua amada.

Arquétipo do herói. O Homem protetor da entidade feminina. O homem e sua amada.

Posso ainda dizer que grande parte da misoginia¹ nasce justamente aí. Homens que teriam se entregado de corpo e alma a uma mulher, seguindo à risca todo conceito clichê romântico exagerado, na qual ironicamente as próprias mulheres almejariam esse conceito, fazendo homens esperarem uma recompensa a altura por tamanho esforço social e intelectual em tentar satisfazer todas as necessidades de sua amada. E quando são acometidos pela a rejeição óbvia, a desilusão força em muitos homens o sentimento de perda ou falta. E numa parcela de homens que já não aguentam mais tamanhas desilusões e ferimentos emocionais acabam criando e nutrindo uma espécie de ódio pela as mulheres.  E você estaria se perguntando, ou melhor dizendo, você mesmo já deve ter se perguntado depois de uma desilusão;

“Por que ela não me quis?”

“Ela me trocou por esse cara que não dá valor para ela?”

“O problema é comigo?”

“Eu fui a melhor coisa para ela.”

É interessante salientar que o homem romântico é traído por ele mesmo, e não pelo o que a mulher almejada. É ele próprio quem realiza no arquétipo romântico todo um plano que já está fadado ao fracasso desde o início. Mas tudo muda quando o homem romântico clichê começa a entender melhor o universo feminino e compreender que na verdade não devemos dar as mulheres o que elas querem, mas sim o que elas precisam. Superar essa mentalidade é um grande passo para um sucesso frente a relacionamentos e desilusões póstumas. Quando um jovem reconhece isso, trabalhará em cima disso objetivando a teoria prática de que deve tentar qualquer coisa menos o clichê do homem romântico.  A retórica de que o homem deve ser o ativo e aquele que exerce poder em cima da mulher é real e puramente instintiva de forma completamente animalesca. Você pode ter reparado em sua vida que as melhores mulheres tendem a ficar com homens que são melhores em alguma coisa. Seja, por exemplo, o poder aquisitivo ou o poder sociável do homem na sociedade. Tais papeis de influência estimulam a libido sexual de uma mulher, pois os melhores da sociedade teriam os melhores genes e, consequentemente, os filhos mais fortes e inteligentes. Não é uma questão única de ter dinheiro, mas sim de poder. E o poder nem sempre está ligado a dinheiro, mas sim em como agir com as pessoas em sua volta e a influência que gera para si contra as pessoas. Isso é presente em diversos momentos da história, como as milhões de cartas de admiradoras que Hitler recebeu, superando em número absoluto o número de cartas que os Beatles receberam, as centenas de mulheres que se entregaram a Fidel Castro e a qualquer grande nobre que já existiu antigamente. Mulheres sempre almejaram homens de poder, homens líderes. As mulheres procuram no homem as melhores características sociais, físicas e emocionais para finalmente suprirem o incontestável desejo de se submeteram ao ato de submissão sexual.

É justamente em cima disso que o cafajeste surge e modifica todo o contexto do relacionamento. Cafajestes tenderiam a serem românticos desiludidos, mas que agora conheceriam os macetes para conquistar uma mulher. Quando finalmente compreendem a natureza feminina, eles agem de forma racional objetivando em suas ações todo um ardiloso plano para conseguirem conquistar uma mulher que tanto almejam. Eles reconhecem a importância do papel instintivo das mulheres e suas preferências globais, como disse anteriormente, mas nem todo cafajeste em ascensão tem poderes, ou é alguém influente. Então como chamar atenção de uma mulher não tendo esses atributos que fazem tanta diferença? A questão de ser nunca foi um fator determinante, mas sim o modo em que o homem age diante de uma mulher. Ele pode não ser poderoso ou influente popular , mas age como um diante dela, ou melhor afirmando, age de maneira dominante. Isso basta. A mulher vai colocar tal cafajeste em ascensão e sairá da mesmice de sempre recusar homens melosos e chatos. Elas não estão acostumadas com homens influentes ou poderosos. Elas não estão acostumadas com um homem que está pronto para ir embora sem olhar para trás. Isso transforma e muda tudo para as mulheres como um novo mundo a ser explorado, como um coquetel de puros e genuínos sentimentos raros que ela dificilmente sente. E quando somos novos, inexperientes e despreparados em algo, somos acometidos pelo desespero agoniante que toma conta do corpo, e as mulheres, sentindo essa nova emoção, essa adrenalina que atinge todo seu corpo, faz com que maximize ainda mais o desejo eloquente por esse tal homem diferenciado que é forte, impar, protetor e poderoso.

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 Ele não precisa necessariamente agir de forma mentirosa e pragmática, beirando a psicopatia, isso é algo exclusivo dos canalhas. O cafajeste em média possui uma dialética de amar as mulheres, seus corpos e as admiram. Partem de um preceito até libertino de sexualidade livre e se veem como autênticos conquistadores como uma espécie de Status, como uma honraria carregar tal prefixo. Então, poderíamos afirmar que, conquistar mulheres é como um esporte para os cafajestes. Pois eles necessariamente não almejam o casamento comum, ou um relacionamento duradouro naquele momento, mas sim, trabalham a partir do axioma de sair com um grande número de mulheres para tentar, talvez, superar suas inseguranças e até traumas referentes aos “nãos” do passado.

O canalha seria justamente tudo o que antes foi dito e classificado como cafajeste, mas com a única diferença de que o canalha não teria moral ou escrúpulos no que diz respeito a alcançar seus objetivos sexuais. Seria um exímio mentiroso, prometeria coisas irreais para mulheres que jamais passariam pela a cabeça dele. Como promessas de namoro, casamento, relacionamentos duradouros e afins. Ele mente e é ardiloso. Tudo seria permitido aos olhos dos canalhas. Que agem de má fé em cima das mulheres apenas para conseguir penetra-las e vangloriarem de tal feito.  Sem mais, os canalhas são os cafajestes imorais sem honra.

Se você me perguntar qual é o homem ideal, eu lhe diria que é uma escolha pessoal. Não posso julgar aqueles que decidem serem os típicos cafajestes, tanto que em uma parte de minha juventude me declarava publicamente como um “cafajeste convicto”, e por seguir esse caminho me fez ser quem eu sou hoje. Pode ser que todos nós tenhamos ou tentemos ser cafajestes, mas conforme vamos trilhando a estrada da vida e superando as adversidades que essa estrada gera, vamos nos fortalecendo e amadurecendo e se preparando para os novos desafios. E coisas que eram consideradas objetivo de vida, hoje podem ser vistas como algo banal, ou melhor afirmando, algo que deve ser melhor apreciado com a pessoa que você ama. Os membros mais antigo percebem a mudança pela a qual o CDH está indo e como progredimos em questão de conteúdo e causa. Devemos sempre mudar e evoluir, mas respeitando a moral, as tradições e aquilo que você classifica como Axioma.

Por Geon Tavares

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  • Rose Maria

    Interessante o assunto abordado

  • Dalton

    The abitliy to think like that shows you’re an expert

  • Bryan

    Eu devia ter voltado a ler esses textos a 3 meses atrás, mas, o que acontece… acontece. Voltei e vouaprender com os erros! Obrigado pelo texto, SEMPRE VIRI.

  • johnathan

    Sábio Texto: Que a paz esteja com todos nós

    Supremo Deus do Universo, que há tudo e a nós rege.

  • Iran

    Dizem que não existe manual para a vida mas, se existisse, esse seria o “Capítulo 7”. Meus parabéns pelo texto.

  • Robson

    Meu nobre escritor parabéns, excelentíssimo texto!

  • Excelente!

  • Will

    Adorei o texto,conheci o blog faz pouco tempo. Mas pude usar muitas coisas como exemplo. Bom trabalho.

  • Jonatas

    Perfeito cara, hoje eu estava precisando ler isto, Obrigado

  • Eu acompanho o CDH desde o início e tenho visto o quanto o parão dos posts foi mantido e evoluído. Meus parabéns!

  • Cadu Silva

    Belo texto ! A evolução é notória desde o começo do CH, continuaremos evoluindo juntos, irmãos.

  • Eu já havia reparado que da mesma forma que eu mudei nos últimos anos, o CDH também havia mudado. É ótimo constatar que meus irmãos estão evoluindo e amadurecendo também, não no sentido purista da palavra, longe de mim dizer algo assim, mas passando pelas demais etapas da vida com maturidade. A honra e a moral sempre foram os alicerces da nossa filosofia de vida, que continue assim. Semper viri!

  • Ótimo texto. Canalhas existem por culpa de como nós mulheres fomos criadas, mas graças a informação isto está mudando, sem mulheres iludidas, não há comportamento canalha que sobreviva, tenho dito. Crio minha filha não para ser a princesa a espera de ilusões, mas que seja bem resolvida em todas as questões, se ame primeiro, e não crie tantas expectativas a ponto que se perca dentro delas. Eu porém estou a espera de cafa somente meu, minhas amigas dizem impossível, mas eu acredito! ?

  • Ligya Caroline

    No início achei q vc havia se decepcionado um bocado com as mulheres e estava revoltado. Tbm achei q vc fosse homossexual…
    Cai de paraquedas aqui, mas daí continuei lendo. Tem partes em q (confesso) fiquei encomodada e pq não dizer, q fiquei indignada! Acho q é aí q entra o ditodo né, “A verdade dói”!
    Acho q realmente tem razão. Na verdade não quero um bibelô de estante. Não quero um cara q diga amém a todos os meus caprichos e vontades. Quero um Homem com opinião e bom senso.
    Um Homem q queira discutir comigo e me faça entender o pq é melhor algo que ele queira. Um Homem q cuide de mim não por obrigação, mas por instinto. Um Homem q me faça andar do lado de dentro da calçada. Um Homem bem humorado, confiante, e até um pouco marrento nas horas certas. Eu quero o “Cabeça” da relação, pq eu serei o pescoço e trabalharemos juntos.
    Excelente texto.
    Realmente põe a reflexão, mesmo não sendo Homem!
    Vou continuar meu rolê pela página…

  • Ótimo texto, palavras bem escolhidas para o texto. A espera de novos temas. Ah e infelizmente as últimas postagens demoram chegar quando se entra pelo celular, não sei qual é o problema, mas seria bom se arrumassem, pois, fico mais com o celular por perto do que o notebook e sempre acompanho os textos e o fórum

  • LionHeart

    Muito bom. Me identifiquei com o texto, sempre fui um cara que joga sedução em cima de toda mulher que aparece, conquistei muitas e magoei muitas… Fui criado na igreja e casei muito cedo com a ideia de romantismo paladinesco impregnado e passei por situacoes traumáticas no passado, quando éra o típico “bom homem”. Hoje nao tenho mais esse impulso de seduzir, mesmo sabendo que posso… Amadureci talvez. Semper Viri!

  • B. Tiago

    Mais um ótimo texto! Parabéns!
    Creio que todos os textos do CDH nos fazem analisar e refletir sobre nossa conduta pessoal.

  • Matheus Pontes

    Muito inspirador e reflexivo, parabéns !

  • A forma que você escreve e detalha os conhecimentos através das experiências e citações antigas, cara … Coisas assim fazem qualquer um que lê textos como esse pensar e pensar e pensar e mais mil vezes, até finalmente conseguir encaixar o “eu” no texto. E isso deixa seus textos autênticos e ótimos de conteúdo. Parabéns pelo trabalho Geon, sou um grande fã do seu trabalho em geral! Continue assim para melhor!

  • Texto excelente, como sempre.